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Rubrica : Refletindo...

A EDUCAÇÃO INTERCULTURAL COMO FACTOR DE UNIDADE NACIONAL E DE DESENVOLVIMENTO :
O GRANDE PROJECTO DA NAÇÃO ANGOLANA*

(3° número / Maio 2007)


Angola é um país africano em desenvolvimento, multicultultural e plurilingue, rico em matérias-primas, recentemente saído de uma prolongada guerra civil. É também caracterizado por ser detentor de uma população jovem que, na sua maioria, é iletrada, pouco qualificada e com fraca competência no domínio da sua língua oficial e de escolaridade. A reconstrução do País, a construção da nação e a interiorização de um espírito de angolanidade, como garante do primado da Paz e da reconciliação nacional, são duas das actuais preocupações relevantes do Estado angolano, já empenhado no processo de realização de eleições livres, democráticas e multipartidárias. Antropologicamente, Anderson define a nação como sendo uma comunidade imaginada, já que não se torna possível conhecer, encontrar ou sequer ouvir falar da maioria dos compatriotas, embora, na mente de cada um, esteja viva a imagem da comunhão entre todos os seus membros1.

Por razões de ordem histórica, as fronteiras dos novos países africanos, na sua grande maioria independentes a partir da década de 60, já se encontravam delineadas desde a Conferência de Berlim (1884-1885), de acordo com os interesses das antigas potências coloniais. Cabe agora a cada um dos novos Estados africanos a tarefa de criar a nação, enquanto configuração política e intelectual, no seio das diversidades culturais existentes. Um processo educativo que implica na interiorização de uma nova identidade, que se deve sobrepor aos diferentes sentidos de identidade privada adquiridas no seio familiar e comunitário, sem que, no entanto, se ignore o multiculturalismo como realidade sociológica e a interculturalidade como estratégia de interacção com o Outro, aceitando-o na sua diferença.

Na realidade, nos dias de hoje, não são já as diferenças, por mínimas que sejam, que separam os homens e impedem o desenvolvimento sustentado e o bem-estar social das populações. Na maior parte das vezes é a intolerância dos próprios homens, que se recusam a respeitar e a aceitar essas diferenças por falta de sentido de alteridade2. Daí que, a construção da angolanidade, analisada de uma forma prospectiva, terá de ser edificada com a participação de todas as culturas em presença, fora de critérios estereotipados de exclusão e numa lógica de complementaridade. Nesta conformidade, independentemente da etnia, cor da pele, local de nascimento, religião, estatuto social e/ou sensibilidade política, estejam no interior do país ou em qualquer diáspora, todos os cidadãos angolanos, com os mesmos direitos e deveres, estão incluídos num mesmo e amplo conceito de angolanidade, sendo todos eles necessários à construção de uma nova identidade política – a nação. Este amplo sentido de Unidade e de Reconciliação Nacional que o Estado angolano reclama para o seu progresso económico e bem-estar social, é um imperativo do primado da Paz, do Estado de Direito, da Democracia, dos Direitos Humanos, da Justiça Social, da elevação do baixo sentido de auto-estima e não deixa de estar em consonância com a Constituição em vigor no País.

O direito de cada cidadão viver e ser educado de acordo com a sua própria cultura encontra-se plasmado, desde 10 de Dezembro de 1948, na Declaração Universal dos Direitos Humanos3; nas Conclusões da Conferência sobre Educação para Todos, realizada em Jomtien, em 1990; na Declaração Universal dos Direitos Linguísticos, realizada em Barcelona, em 1996; no Fórum sobre Educação para Todos, realizado em Dakar, em 2000; na Cimeira do Milénio que, ainda em 2000, reuniu, em Nova Iorque, um número considerável de Chefes de Estado e de Governo. Já em 1982, a recomendação nº 27 da Conferência Mundial sobre Políticas Culturais, organizada pela UNESCO, na cidade do México, aconselhava o seguinte:

(…) ter em consideração a dimensão cultural nos processos de desenvolvimento e a estimular as aptidões criadoras e a vida cultural no seu conjunto (…) no intuito de contribuir para a revelação dos grandes desafios mundiais, que se apresentam no horizonte do século XXI”.

Esta recomendação, fruto de um conjunto de reflexões críticas que surgiram a partir da década de 70, antevia já os limites de uma concepção de desenvolvimento fundada exclusivamente no crescimento quantitativo e material, apesar dos progressos ainda registados em alguns países. Porém, esta recomendação da UNESCO passou a por em causa a eficiência das estratégias de desenvolvimento adoptadas após a II Guerra Mundial, já que as mesmas dificilmente conseguem dar hoje resposta aos grandes desafios com que se debatem os países em desenvolvimento: a erradicação da fome e a extrema pobreza; a redução da mortalidade infantil; o combate ao HIV/SIDA, à malária e a outras endemias; o melhoramento da saúde materna; a obtenção generalizada do ensino primário universal; a promoção da igualdade entre sexos e a autonomização das mulheres; a garantia da sustentabilidade ambiental; e a criação de uma parceria mundial.

De acordo com o Relatório de Desenvolvimento do Banco Mundial de 2000/2001 – exceptuando os casos pontuais resultantes de situações de conflito armado, catástrofes naturais, endemias e outros tipos de insegurança social, que não são poucos nos países em desenvolvimento, a esperança de vida aumentou, em média, 20 anos, desde 1960; a taxa de mortalidade infantil diminuiu mais de metade; o número de matrículas escolares, entre 1990 e 1998, cresceu 13%; o número de pessoas em situação de extrema pobreza baixou para 78 milhões. Porém, é também um facto que, dos 6 mil milhões de habitantes hoje existentes no planeta, quase metade vive com menos de dois dólares/dia e um quinto desta população com menos de um dólar. Agravaram-se, profundamente, os casos de fome em todo o Mundo, ao ponto de a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação – a FAO – ter solicitado a formação urgente de uma grande aliança internacional para a sua erradicação. A criação de uma parceria mundial para o desenvolvimento na actual mundialização da economia é uma necessidade imprescindível aos países pobres, independentemente, do seu maior ou menor potencial em matérias-primas. (…) Por outras palavras, segundo o economista Adelino Torres, em África “(…) não haverá desenvolvimento sem cooperação internacional (…)”4

Diz-nos Louis Emmerinj, que a década de 80 foi definitivamente perdida para o desenvolvimento e para as populações da América Latina e de África. Entre 1981 e 1984 toda a prioridade foi dada aos programas de ajustamento da dívida e estes amputaram os orçamentos, os investimentos públicos, obrigando as economias nacionais a penosos refreamentos. Tal medida fez com que o número de matrículas na escola primária diminuísse em 22 países em desenvolvimento5. Posteriormente, estagnou a ajuda estrangeira para a educação em África, tendo sido mais baixa em 1989 que em 1975, já que o nível de ajuda da ADP (Ajuda Pública ao Desenvolvimento da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico – OCDE) desceu, entre estes dois anos (1975 e 1989), de 17,3% para 10%. Em 1992, chegou a 8,4% de toda a ajuda bilateral. O sociólogo Josué de Castro alerta também para o seguinte facto:

(…) só um terço, cerca de 4 mil milhões de dólares da soma total de 12 a 14 mil milhões de dólares anuais, que as organizações internacionais consideram como ‘auxílio ao desenvolvimento’, poderá ser eventualmente classificado de ‘auxílio gratuito’. O resto constitui apenas um financiamento em condições desfavoráveis, que acarreta um fardo ruinoso para os países em vias de desenvolvimento.6

Na realidade, são ainda parcos os recursos destinados à Saúde e à Educação pública, que têm servido para pagar os serviços da dívida externa dos países em desenvolvimento. Entre 1985 e 1998, as políticas do FMI levantaram 4 mil milhões de dólares só da economia africana. Em 1992, a acumulação dos atrasos no pagamento da dívida africana já representava 32% das exportações de toda a África sub-sahariana7.

Se levarmos em conta um estudo do Banco Mundial, de 1990, que nos informa, que “um ano de escolarização faz baixar em 9% a mortalidade infantil; a queda de um ponto percentual na taxa de analfabetismo, em África, faz aumentar em dois anos a esperança de vida; quatro anos de estudos primários fazem aumentar a produtividade agrícola em 8,7%;8 perguntamos: Que tipo de ajuda proporcionam as agências financiadoras internacionais, se o abismo que existe entre a miséria e uma vida decente, entre uma vida sórdida e a esperança pode ser preenchido pela Educação?

A experiência angolana, incluindo a que foi adquirida por ensaio e erro, mostra-nos que sem uma adequada qualificação dos seus recursos humanos, não se tornará possível alcançar um maior desenvolvimento, mesmo que ocorra um acentuado crescimento económico. Os cidadãos de qualquer país em desenvolvimento, enquanto potenciais criadores de inovação e de riqueza, se não forem profissionalmente formados para a actividade laboral; institucionalmente educados para a afirmação da sua identidade cultural e para o aceitação e respeito pelas demais; civicamente preparados para o exercício da cidadania; não poderão fazer emergir os países do patamar de pobreza em que estão mergulhados, mesmo quando estes são ricos em matérias-primas, uma vez que deixam de ser eles próprios os maiores beneficiários dessas mesmas riquezas.

Na verdade, estamos a sair da era da industrialização para entrarmos na era do conhecimento. O Japão, por exemplo, país pobre em matérias-primas, mostra-nos, que a sua maior riqueza está no próprio homem japonês, o principal elemento das suas forças produtivas, detentor de um padrão educacional elevado, sustentado por uma cultura milenar e por um espírito aberto ao progresso e à modernidade; i.e., por um espírito aberto à endogeneidade.

Nos dias de hoje, a aliança indissociável entre Educação/Cultura/Informação passou a ser necessária a uma maior autonomização pessoal e social, a uma maior cooperação entre Estado e Sociedade Civil e, consequentemente, a um maior crescimento económico e desenvolvimento sustentado. A Escola, no cumprimento da sua função social, deverá propiciar aos aprendentes um sentido amplo de Educação, onde se cumpram objectivos instrucionais e objectivos educacionais. Um sentido amplo de Educação definido como um processo de preparação e de formação de pessoas, para que no futuro elas possam participar na vida produtiva, cultural e no exercício da cidadania. Um sentido amplo de Educação que, já em pleno século XVII, foi caracterizado pela seguinte máxima do pedagogo morávio Jam Amos Coménius: Omnes, Omnia, Omnino (Tudo, todos, de todas as maneiras). Hermano Carmo estabelece áreas transversais e áreas específicas, que devem proporcionar aprendizagens para uma educação para o desenvolvimento:

No campo da transversalidade e face a um mundo em constante mutação, cada cidadão terá que se adaptar à mudança e aprender a geri-la. Deverá aprender a ser autónomo sem ter que se insular no seu individualismo, já que qualquer pessoa, enquanto bio-psico-social, vive em comunidade e não de forma isolada. Face à democracia, terá que aprender competências comunicacionais indispensáveis ao exercício da mesma, adquirindo as necessárias competências de leitura, de escrita e de conversação (saber falar e saber ouvir). Terá que adquirir competências para o exercício da democracia representativa, aprendendo a escolher, a respeitar as suas escolhas e as dos outros e a utilizar mecanismos democráticos para a substituição dos seus representantes. Terá ainda que adquirir competências para o exercício da democracia participativa (preparar, tomar e executar decisões). Como cidadão, terá que aprender a ser solidário ao nível individual (solidário para com as crianças, adolescentes, adultos e idosos que integram as gerações vivas) e solidário ao nível familiar, organizacional, comunitário, nacional e mundial. Terá ainda que ser solidário no tempo, quer em relação às gerações futuras (sendo solidário para com os netos, como uma forma de garantir o desenvolvimento sustentado), quer em relação às gerações passadas (contribuindo para a defesa do património e assumido a história em todos os seus aspectos positivos e negativos em solidariedade com os seus antepassados).

No campo da especificidade deverá aprender a viver com qualidade, protegendo o ambiente como património comum da humanidade actual e futura. Face à população deverá ser educado para assumir uma paternidade e maternidade responsáveis. Em relação à saúde, deverá ser educado para a nutrição, para a prevenção de doenças e para assumir uma postura favorável à formação sanitária básica. Ao nível da cidadania económica, deverá o cidadão ser educado para a produção, para a gestão de recursos, para a distribuição de bens e serviços e também para o consumo. No âmbito das questões do género, as mulheres deverão ser respeitadas e encaradas com os mesmos direitos e deveres que os homens. Educar uma mulher é o primeiro passo para se educar uma família e, é neste contexto, que as mulheres se tornam em agentes estratégicos de democratização e de desenvolvimento. Face à multiculturalidade, existente em todos os continentes, cada cidadão, através de uma educação intercultural, terá de ser educado para a sua própria identidade cultural, para convivência e coexistência com outros de diferentes culturas e para o ecumenismo.

Em Angola, no período pré-colonial, diferentes grupos etnolinguísticos com autonomia política organizaram-se em reinos, que emergiram em diferentes épocas através de chefes de linhagem, detentores de poder económico e prestígio alcançado junto das suas comunidades. É assim que se conhece, entre outros, a formação do reino do Kongo, entre os séculos XIII e XV; dos reinos do Ndongo, de Matamba, de Kassange, da Kissama e do Sudoeste, entre os séculos XVI e XVII; dos reinos do Planalto Central, entre os séculos XVI e XVIII; dos reinos da Lunda-Tchokwé, entre os séculos XVI e XIX. Nestas comunidades os processos educativos realizavam-se em estreita cooperação com as diferentes culturas da época, independentemente do facto de todas elas pertencerem a um mesmo tronco comum de identidade bantu.

No actual contexto da globalização, o liberalismo, em que assenta a actual ordem económica mundial, procura desempenhar um papel determinante na definição de um paradigma socialmente estruturante, já que é o mercado e os seus mecanismos, que, hoje em dia, passaram a ser factores de integração social por excelência. Logo, o sistema de valores que se impõe face à concorrência do mercado é tradicionalmente de origem ocidental e não híbrido. Um facto que faz prevalecer a perspectiva economicista conhecida por “one world thesis”, defendida por Martin Albrow, que entende a globalização como um processo direccionado à uniformização do mundo.9 Porém, há um outro facto que também não deixa de ser real.

De acordo com o sociólogo Émile Durkheim, “não há, não pode, nem deve existir” uma espécie de “educação universal”, já que cabe a cada sociedade real e histórica, em determinado momento da sua história, a responsabilidade de criar e de impor o tipo de educação de que necessita para o exercício de papéis sociais.10 Assim sendo, a acção educativa de um determinado país não deverá estar desassociada do contexto cultural em que está inserida. Caso contrário, os aspectos teóricos adquiridos nas instituições de formação não serão capazes de dar resposta aos problemas reais e quotidianos da sua sociedade. A História da Educação em Angola, nomeadamente, a que é caracterizada pelo período colonial, a partir da Lei do Indigenato, constitui o exemplo mais próximo daquilo que nos referimos atrás.11 Em 1940, apenas 0,7% dos negros eram considerados “civilizados”, percentagem que se manteve dez anos depois nas estatísticas de 1950. A 6 de Setembro de 1961 foi abolida a Lei do Indigenato, quando Adriano Moreira foi ministro do Ultramar.

Na realidade, a maioria dos angolanos, sobretudo nas zonas rurais, não possui ainda a necessária competência linguística na língua oficial e de escolaridade. Consequentemente, sem comunicação (ou deficiente comunicação) não há aprendizagem. Contrariamente ao que dita o discurso político e face à resistência das populações à tentativa de ocupação militar por parte do domínio colonial, que ainda no início da segunda metade do século XIX se apresentava como um processo difícil de ser alcançado,12 não houve cinco séculos de presença portuguesa em todo o território angolano, nem cinco séculos de exploração colonial portuguesa a todos os angolanos. Com a excepção da zona litorânea, também não houve cinco séculos de presença da língua portuguesa em todo o território angolano. A forte resistência militar e cultural das populações a essa ocupação fez com que a administração portuguesa levasse a cabo “campanhas de pacificação” que, na colónia de Angola, tiveram início em 1912 e só terminaram em 1937.13 Daí que Conceição Neto tenha afirmado que “(…) os angolanos no geral são, em primeira instância, bantuófonos. Não lusófonos. E (...) o desenvolvimento da língua portuguesa, em Angola, passa pelo reconhecimento dessa realidade.”14

Em 1986, 11 anos após a independência de Angola, foi feito um diagnóstico pelo Ministério da Educação sobre a eficiência do seu ensino de base. Ao nível das quatro primeiras classes da instrução primária chegou-se à seguinte conclusão: Em cada 1.000 crianças que ingressava no primeiro ano de escolaridade, somente 142 concluíam o ensino primário, das quais, 34 transitavam sem qualquer repetição, 43 com uma, e 65 com duas ou três repetições. Ao analisarmos, quem eram as pouco mais de 30 crianças que, em cada mil, normalmente, não reprovavam, constatámos que, as mesmas viviam, maioritariamente, nas cidades e tinham quase sempre o Português como língua materna, a única língua de escolaridade, apesar do plurilinguismo existente em Angola. Torna-se difícil aceitar hoje, mesmo ao nível do discurso político, que esta realidade sociológica possa sustentar o conceito de “lusofonia” para um país como Angola.

Com isto, não pretendo, de modo algum, minimizar o papel que a língua portuguesa joga em Angola como língua oficial, língua de escolaridade e língua de unidade nacional na sua função veicular e de argamassa entre as diferentes identidades etnolinguísticas, bem como, ainda, língua de contacto internacional. O que nos parece óbvio é que, em vez de uma lógica de unicidade linguística para a escolarização, se utilize uma lógica de cooperação entre a língua portuguesa e as outras línguas maternas africanas faladas no país. Caso contrário, só uma pequena percentagem de angolanos, que têm a língua portuguesa como língua materna, terá, à partida, condições de sucesso escolar, em prejuízo da necessidade de uma escolarização básica para todos e de um desenvolvimento sustentado e endógeno para Angola. É a escola, que deve ir ao encontro das necessidades educativas dos aprendentes e não os aprendentes ao encontro de uma instituição que não atende às preocupações de comunicação da grande maioria dos aprendentes com necessidades de aquisição do saber, do saber-fazer e do saber situar-se.

As necessidades básicas educativas de crianças e adultos em Angola, em processo de alfabetização, só poderão ser satisfeitas se o sistema educativo for suficientemente flexível para reconhecer a existência de outras culturas e a língua de contexto das comunidades. Caso contrário, as escolas, como instituições, não conseguem cumprir o papel social para o qual foram criadas. Daí que, administrativamente, se imponha a necessidade de se introduzir as línguas africanas de Angola no ensino, paralelamente à criação de uma metodologia de aprendizagem da língua portuguesa, como língua segunda (L2), com vista a uma maior interacção entre Escola/Família, Escola/Comunidade, Educação/Cultura/Desenvolvimento. Sem dúvida alguma que, esta reflexão nos remete para as noções de sustentabilidade 15 e de endogeneidade 16. A primeira, enquanto princípio que privilegia o uso de bens naturais/culturais sem que se descure da sua conservação, para que as gerações futuras possam beneficiar dos mesmos. A segunda, pela sua abordagem utilitária inspirada nas tradições africanas, mas com uma imperiosa abertura ao progresso e à modernidade. Como afirma Hermano Carmo,

Convém antes de mais, desmontar uma ideia feita da sociedade industrial, a de que tudo o que é tradição é cristalizado, antiquado, substituível, e de que o que se apresenta como novidade, moderno, é em si mesmo bom e adoptável para melhorar a qualidade de vida das populações.” 17

A publicação da Lei de Bases do Sistema de Educação – Lei 13/01 –, no âmbito da necessidade de reformulação do actual sistema educativo, não só, dá resposta às dificuldades de comunicação escolar numa sociedade multicultural e plurilinguística, como também valoriza e valida o acervo patrimonial angolano. As principais razões para a introdução das línguas africanas no ensino, na opinião de Joseph Poth, especialista em Didáctica das línguas junto do Instituto Nacional de Educação da República Centro Africana, decorrem, essencialmente:

· Do elevado índice de reprovações que se verificam na escola primária, por falta da necessária competência linguística nas línguas de escolarização de origem europeia;

· Dos avanços alcançados pela linguística, no que se refere aos sistemas de funcionamento das línguas, o que, no plano teórico, acabou por ultrapassar dificuldades consideradas, até bem pouco tempo, insuperáveis;

· Dos progressos alcançados pela psicologia, que realçou a importância primordial da língua materna no desenvolvimento psicomotor, afectivo, moral e cognitivo da criança;

· Do imperativo de, pedagogicamente, organizar os programas do ensino e da formação de acordo com a realidade cultural, linguística e humana de África;18

Há, por outro lado, que considerar o seguinte: o paradigma de aprendizagem em línguas africanas não levanta problemas relacionados com o discurso pedagógico. Falha, no entanto, ou apresenta sérias dificuldades na sua operacionalização, tal como já ocorreu em vários países africanos, nomeadamente, na actual República Democrática do Congo, se a Educação não for reconhecida como um sector de eleição, onde se devem estabelecer relações indissociáveis entre: Educação/Ensino, Educação/Cultura/Informação e Educação/formação. Este modelo de formação de recursos humanos, criado para dar resposta às questões de diversidade cultural e linguística, também falha se houver: falta de materiais didácticos adequados, falta de formação pedagógica apropriada e, principalmente, falta de vontade política, falta de apoio das populações e das diferentes elites existentes no país.19 Num Estado de direito democrático torna-se imprescindível a participação da sociedade civil que, de acordo com Amartya Sen, deixa de se apresentar como uma mera e passiva beneficiária de programas direccionados para o desenvolvimento e passa a contribuir para o estabelecimento de “papéis de sustentação e não de entrega sob encomenda.” 20

Dado que as culturas não são autocontidas, verifica-se também a existência de uma miscigenação, não só resultante das relações de consanguinidade entre africanos e europeus, mas também, do contacto entre os diferentes grupos. As identidades culturais têm sido concebidas como rígidas e imutáveis e não como processos de identificação que se estabelecem num determinado tempo e espaço. Assim sendo, esses processos dão origem a uma sucessão de autocriações constantes, que se configuram de uns tempos para outros.21 As etnias são, portanto, “significantes flutuantes” e o conceito de etnia deve ser analisado “como uma categoria de nomeação e de classificação, cuja continuidade depende de uma fronteira e de uma codificação constantemente renovada das diferenças culturais, entre grupos vizinhos.”22

Os indivíduos, tal como os grupos sociais são, ou deixam de ser, segundo o espaço e o tempo, membros de uma determinada etnia. As formas de organização social na África pré-colonial estão associadas a “processos constantes de composição, decomposição e recomposição, que se desenvolvem no interior de um espaço e que fundamentam a consciência de uma pertença de identidade individual ou de uma identificação colectiva.”23 A colonização limitou-se a cristalizar num território fixo e institucional identidades individuais e identificações colectivas, dando origem a uma série de “safaris ideológicos, que passaram depois a processos de dominação política, económica ou ideológica de um grupo por outro.”24 Neste contexto “(...) é necessário conhecer quem pergunta pela identidade, em que condições, contra quem, com que propósitos e com que resultados.”25

Professor Doutor Filipe Zau
(Doutorado em Ciências da Educação, pela Universidade Aberta de Lisboa, na especialidade de Educação
Multicultural e Intercultural)

* Aula Magna proferida na abertura do ano académico 2007 no ISCED de Luanda (21 de Março de 2007).

1
- ANDERSON, Benedict (1989), p.14, s/t, s/e, s/l; cit in, SILVA, Rosa Cruz (2002), Construindo a História Angolana: As Fontes e a sua Interpretação; Crítica e Ensaios, União dos Escritores Angolanos, Luanda; In, http://www.uea-angola.org/artigo.cfm?ID=12, em 22/04/03.

2- Alteridade – (ou outridade) é a concepção que parte do pressuposto básico de que todo o homem social interage e é interdepende de outros indivíduos. Assim, como muitos antropólogos e cientistas sociais afirmam, a existência do "eu-individual" só é permitida mediante um contacto com o outro (que em uma visão expandida se torna o Outro - a própria sociedade diferente do indivíduo). Dessa forma eu apenas existo a partir do outro, da visão do outro, o que me permite também compreender o mundo a partir de um olhar diferenciado, partindo tanto do diferente quanto de mim mesmo, sensibilizado que estou pela experiência do contacto. “Aprendamos a viver juntos como irmãos; caso contrário, vamos morrer juntos como idiotas” (Martin Luther King); In, http://www.alteridade.hpg.ig.com.br/index.htm, em 31/12/06. A “noção de outro ressalta que a diferença constitui a vida social, à medida que esta efectiva-se através das dinâmicas das relações sociais. Assim sendo, a diferença é, simultaneamente, a base da vida social e fonte permanente de tensão e conflito” (G. Velho, 1996:10). “A experiência da alteridade (e a elaboração dessa experiência) leva-nos a ver aquilo que nem teríamos conseguido imaginar, dada a nossa dificuldade em fixar nossa atenção no que nos é habitual, familiar, quotidiano, e que consideramos ‘evidente’. Aos poucos, notamos que o menor dos nossos comportamentos (gestos, mímicas, posturas, reacções afectivas) não tem realmente nada de ‘natural’. Começamos, então, a nos surpreender com aquilo que diz respeito a nós mesmos, a nos espiar. O conhecimento (antropológico) da nossa cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas; e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura possível entre tantas outras, mas não a única.” (F. Laplantine, 2000:21). Tal tema foi estudado ainda por Tzvetan Todorov em seu livro A conquista da América – a questão do outro, onde é estudado no contexto do descobrimento e a conquista da América no primeiro centenário após a primeira viagem de Colombo, basicamente no século XVI. Há ainda, contudo, menções a essas relações de alteridade em obras anteriores a Todorov, como por exemplo, em Michel de Montaigne, um dos autores dos textos a serem cruzados: “Mas, para retornar a meu assunto, acho que não há nessa nação nada de bárbaro e de selvagem, pelo que me contaram, a não ser porque cada qual chama de barbárie aquilo que não é de costume; como verdadeiramente parece que não temos outro ponto de vista sobre a verdade e a razão a não ser o exemplo e o modelo das opiniões e os usos do país em que estamos”. In, MONTAIGNE, Michel de (2000); Ensaios; Vol. I; Cap. XXXI, Dos canibais; Martins Fontes; São Paulo; p.307. Apontamentos podem ser feitos não só durante o processo de conquista e colonização da América, mas em toda a história do contacto entre diferentes povos e culturas. Por exemplo, pode-se partir desde Cortês, que procurou conhecer o outro, buscando intérpretes e estabelecendo tácticas de guerra. Surge aqui uma personagem curiosa: Malinche. Ela foi dada por Montezuma aos espanhóis e acaba sendo fundamental para o processo de conquista promovido por Cortês, pois sabia a língua dos maias e astecas e posteriormente também o espanhol. Para os indígenas é o símbolo da traição, para outros é o símbolo da mestiçagem, porque Malinche não é somente bilingue, mas também "bicultural", e a dotou inclusive a ideologia do "outro". Deste modo, a humanidade do outro só foi concebida quando integrada à cultura do "eu", ocorrendo uma assimilação, uma integração da cultura do "outro" à europeia, no caso. Avançando cronologicamente na História, é possível ainda encontrar relatos de relações de alteridade no texto "Descobrindo os brancos", de autoria de um índio ianomâmi chamado Davi Kopenawa Yanomaqui, já no século XX. Nele, as relações de alteridade mais uma vez são descritas, desta vez devido à invasão de suas terras, no estado brasileiro do Amazonas, por milhares de garimpeiros entre os anos de 1987 e 1990. Assim, a análise crítica dessas obras pode levar à indagação de que, por vezes, os estudos históricos possam ser em parte o reflexo do modo de agir e pensar dos europeus na época da conquista, que tomaram a sua sociedade, os seus valores como o "correcto" e o "modelo" a ser seguido pelos "outros". In, http://pt.wikipedia.org/wiki/Alteridade, em 31/12/06.

3- DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS (1948), art. 26, http://www.undime.org.br/declar%20DH.htm, em 30/09/2002.

4- TORRES, Adelino (1998), Horizontes do Desenvolvimento Africano no Limiar do Século XXI, Vega, Lisboa, p.43.

5- EMMERINJ, Louis, (1993), Norte-Sul: A granada descavilhada, Bertrand Editora, Lisboa, pp.34-35 e p.113.

6- CASTRO, Josué de (1973), Prefácio, In, ANGELOPOULOS, Angelos (1973), O Terceiro Mundo frente aos Países Ricos, Edição “Livros do Brasil”, Lisboa, p.8.

7- LOPES, Carlos (1997), Compasso de Espera. O fundamental e o acessório na crise africana, Edições Afrontamento, Porto, p.36.

8- VEIGA, Manuel (s/d), Sustentabilidade do Ensino, Discurso de abertura do debate sobre Educação em cabo Verde, proferido pelo vice-presidente do Grupo Parlamentar do PAICV, Dr. Manuel Veiga; In, htpp://www.paicv.org/Veiga1.html,em 31/12/03.

9- ALBROW, M., Introdution, In, ALBROW, M.; KING, E. – eds (1990), Globalization, Knowledge and Socity, Sage, London; cit. in, VENÂNCIO, José Carlos (1999), Terceiro Mundo, Globalização e Criatividade Artística – Algumas notas sobre a experiência africana; In, MARTINHO; Ana Maria Mão-de-Ferro, Org. e Coord. (1999), África: Investigações Multidisciplinares, Editorial Num, Évora.

10- DURKHEIM; Emile (1984), Educação e Sociologia; In, Sociologia, Educação e Moral, Rés, 1ª ed. de 1922, Porto, p.17; cit. in, CARMO, Hermano (2001), A educação como problema social; In, CARMO, Hermano – coord (2001), Problemas Sociais Contemporâneos, Universidade Aberta, Lisboa, p.243. Nos dias de hoje, este conceito exclui as faixas etárias adultas, bem como as que normalmente são abrangidas pelo ensino superior.

11- Após a Constituição de 1933 e a instauração do Estado Novo, era, oficialmente, possível a qualquer negro ou mestiço ser reconhecido como assimilado (não indígena) e assim atingir o mesmo status legal que um branco europeu. No entanto, para se habilitar a tal categoria, o indivíduo tinha de ter 18 anos de idade, demonstrar que sabia ler, escrever e falar português com alguma fluência, ser trabalhador assalariado, comer, vestir e ter a mesma religião que os portugueses, manter um padrão de vida e de costumes semelhante ao estilo de vida europeu e não ter cadastro na polícia. Era a aplicação do princípio do assimilacionismo, pelo Estado Novo, como forma de promoção social. Veja-se, LEMOS, Alberto de (1941), Bases para a Solução dos Problemas da Colonização, Lisboa, Edição do autor, pp.49-52; MOREIRA, Adriano (1955), Administração da Justiça dos Indígenas, Agência Geral do Ultramar, Lisboa, pp.22-23; MOREIRA, Adriano (1956), The “Elites” of the Portuguese “Tribal” Provinces (Guinea, Angola, Mozambique; In, International Social Science Bulletin, p.465.

12- “(…) Diria a Vossa Excelência que a extensão da província para o interior é um mal sem proveito… pois os principais estabelecimentos parecem ilhas perdidas num oceano indígena sem limites (…) é preciso, portanto, confessar tristemente que o nosso império no interior é imaginário (…) {com} as grandes somas perdidas nas guerras desastrosas que fizemos, poderíamos ter desenvolvido uma zona costeira onde poderíamos exercer com segurança uma influência efectiva”. Cf., Relatório de 19 de Outubro de 1877, do governador-geral Alexandre de Almeida e Albuquerque, para o seu ministro do Ultramar, no qual faz o balanço de trinta anos de aventuras militares e de recuos administrativos. In, WHEELER, Douglas L. (1963), The Portuguese in Angola 1836-1891. A Study in Expansion and Administration, Ph. D. Thesis, Boston University Graduate School, Boston, pp. 241-242; cit. in, PÉLISSIER, René (1986), História das Campanhas de Angola, vol. II, Editorial Estampa, Lisboa, p.92.

13- ROSAS, Fernando (1986) O Estado Novo nos Anos Trinta, Editorial Estampa, Lisboa, p.88.

14- NETO, Maria da Conceição (30 de Janeiro de 1994), A Universidade dos Sete vista das margens do Kwanza, Luanda, Jornal de Angola, Vida e Cultura, p.2.

15- Corresponde ao conceito que privilegia o uso de bens naturais/culturais sem descuidar de sua conservação, para que as gerações futuras possam beneficiar deles. In, http://www.naturally.hpg.fg.com.br/sustentavel.htm, em 18/08/2003.

16- Endogeneidade – Este conceito remete para as fontes das tradições africanas, mas com um imperioso desejo de progresso e de modernização, de abertura sobre a comunidade. O importante na abordagem endógena, encontra-se na origem e na inspiração da construção e da organização do desenvolvimento, devendo esta ser centrada no homem, o qual, por este facto, deve constituir a sua finalidade. HAIDARA; Baka Akhib (1989/1990), Desenvolvimento e Educação em África; In, MATOS, Artur Teodoro; MEDEIROS, Carlos Laranjo – Dir. (1989/1990); Povos e Culturas, Educação em África, Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, p.36.

17- CARMO, Hermano (1999), Desenvolvimento Comunitário, Universidade Aberta, Lisboa, p.33.

18- POTH, Joseph (1979), Línguas Nacionais e Formação de Professores em África, Edições 70, Lisboa, p.11.

19- HYLTENSTAM, Kenneth; STROUD, Christopher (1998), O Conceito de Língua Segunda num contexto africano: Implicações para a pesquisa e Teoria sobre a aquisição de Língua Segunda, In, STROUD, Christopher; TUZINE, António, org. (1998), Uso de Línguas Africanas no Ensino: Problemas e Perspectivas, INDE, Maputo, p.22.

20- SEN, Amartya (2000), Desenvolvimento com liberdade, Companhia das Letras, São Paulo, p.11; Amartya Sen, foi membro da presidência do Banco Mundial (BM) e, em 1998, foi galardoado com o Prémio Nobel de Economia.

21- GONÇALVES, António Custódio (2003), Tradição e Modernidade na (Re)Construção de Angola, Edições Afrontamento, Porto, p.12.

22- Idem, p.11. Quer as novas, quer as velhas identidades, se vêm construindo sobre a representação grego-romana da tensão “demos” e “ethnos”. Numa “polis” havia uma certa comunidade de cidadãos com direitos políticos e jurídicos, que actuava sobre si própria e dominava os que eram considerados inferiores (escravos, estrangeiros, e metecos – forasteiros estrangeiros com autorização para residir em Atenas, sem serem, no entanto, portadores dos mesmos direitos dos atenienses). O “demos” das cidades gregas estava em oposição em relação aos “ethnoi” dos estados tribais vizinhos. Da mesma forma, o “populus” romano se encontrava em oposição a “gentes” ou “nationes” que existissem dentro ou fora do império. Mais tarde, a “etnia” surge em oposição aos estados ocidentais ditos “civilizados” e a sua emergência passa a corresponder às exigências do enquadramento administrativo e ideológico da colonização, permitindo assim dividir as populações conquistadas, encerrando-as em demarcações territoriais e culturais homogéneas. A cristalização de etnias remonta a processos de dominação política, económica e ideológica de um grupo em relação a outro. PANOFF, Michel; PERRIN, Michel, (1973), Dicionário de Etnologia, Edições 70, Lexis, Lisboa, p.67.

23- GONÇALVES, António Custódio (2003), op. cit., p.11.

24- GONÇALVES, António Custódio (2003), op. cit., p.12. Vejam-se diferentes paradigmas de classificação dos principais grupos etnolinguísticos angolanos em REDINHA, José (1974), Etnias e Culturas de Angola, Instituto de Investigação Científica de Angola, Luanda, p.28; ZAU, Filipe (2002), Angola: Trilhos para o Desenvolvimento, Universidade Aberta, Temas Educacionais, Lisboa, pp.58-68 e em FERNANDES, João; NTONDO, Zavoni (2002), Angola: Povos e Línguas, Editorial Nzila, Luanda.

25- GONÇALVES, António Custódio (2003), op. cit., p.12.

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